Fechamento de agências bancárias em Santa Catarina é tema de Audiência Pública na Alesc
- dsrassessoria5
- 6 de ago.
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Comissão Parlamentar Mista será criada para intensificar o debate com a sociedade

Na noite desta quarta-feira, 5, foi realizada Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), que debateu “Os impactos econômicos e sociais do fechamento de agências bancárias em Santa Catarina”. A atividade foi uma iniciativa da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro de Santa Catarina (Fetrafi-SC) e proposta, na Alesc, pelo Deputado Estadual Padre Pedro Baldissera (PT).
Colegas bancários e bancárias, representantes de diversas entidades sindicais, movimentos sociais, organizações populares, economistas e também trabalhadores tiveram a oportunidade de debater sobre o tema com o objetivo de construir propostas para enfrentar os efeitos do fechamento das agências bancárias no Estado de Santa Catarina.
A mesa foi composta pelo coordenador da Secretaria Geral da Fetrafi-SC, Marco Silvano, pelo Deputado Padre Pedro Baldissera, pelo Presidente do Sintrafi Floripa, Cleberson Eichholz, pelo economista do Dieese, Gustavo Cavarzan e pelo representante da Contraf-CUT, Gustavo Tabatinga.

Dieese apresenta dados que geram ainda mais preocupação referente ao fechamento de agências
O economista Gustavo Cavarzan abriu a audiência apresentando dados que mostram que, desde 2020, o lucro líquido dos bancos privados cresceu 61% acima da inflação e dos bancos públicos 10% acima da inflação. Ele também mostrou as convergências estratégicas entre os grandes bancos, que são uma maior seletividade na oferta de crédito, redução de custos, transformação tecnológica e comercial, com foco na rentabilidade.

Segundo o Dieese, os investimentos do setor bancário em tecnologia chega a casa do R$ 50 bilhões anuais, aumento de 58% nos últimos 5 anos. Os investimentos em tecnologia nos bancos atuantes no Brasil estão fundamentalmente vinculados a uma estratégia de redução de custos com agências e com trabalhadores, e não com melhorias no atendimento aos clientes e usuários.
Cavarzan ainda destacou que, apesar de percentualmente os canais de atendimento físico estarem perdendo espaço, em números absolutos, as transações realizadas nesses canais tem crescido. Em 2023 foram 4,2 bilhões de transações em agências físicas e em 2025 foram 7,2 bilhões de transações, o que corresponde à 28 milhões de transações por dia útil.
E demonstrou que, apesar de bilhões de transações serem realizadas fisicamente e de que milhões de brasileiros não acessam serviços financeiros de modo digital, há um processo intenso de fechamento de agências bancárias no Brasil. Entre janeiro de 2015 e maio de 2026, 9,5 mil agências foram fechadas. Ou seja, uma queda de 41,7%, sendo 60% nos bancos privados e 19% nos bancos públicos. Em 2026, até maio, foram fechadas 941 agências. E ressaltou que, desde 2016, os bancos eliminaram 83,5 mil postos de trabalho.
Cenário em Santa Catarina é assustador
Em SC, o número de agências bancárias caiu de 958 para 580 nos últimos 10 anos, ou seja, uma redução de 39% com fechamento de 378 unidades. 130 municípios em SC (44% do total) não contam com nenhuma agência bancária, somando uma população de 660 mil pessoas excluídas do atendimento físico. Nos últimos 10 anos, houve um aumento de 60 municípios em SC sem nenhuma agência bancária. Outros 108 municípios em SC (37% do total) contam apenas com agências de bancos públicos, com uma população de 1,5 milhão de pessoas. 80%dos municípios de SC, portanto, ou não tem agência bancária ou tem apenas agência de banco público. Hoje, em SC, há 10,3 mil trabalhadores bancários, ou seja, houve uma redução de 28% nos últimos 10 anos. Atualmente, existem 12,3 mil locais que prestam serviço como correspondentes bancários, 21 vezes mais do que o número de agências bancárias, o que põe em risco inclusive o sigilo bancário de clientes e transações financeiras.
Em suas considerações finais, o economista enfatizou que a lucratividade e rentabilidade do setor bancário têm sido construídas a partir de uma estratégia de redução de custos com o fechamento as agências bancárias e diminuição da força de trabalho. A redução nas despesas administrativas e despesas de pessoal verificada nos bancos nos últimos anos mostra o sucesso da estratégia do ponto de vista das Instituições Financeiras.
Para a população, no entanto, a estratégia traz prejuízos, na medida em que 7,2 bilhões de transações bancárias ainda são realizadas anualmente nas agências físicas e que temos ainda 39 milhões de brasileiros adultos que não acessam a internet para realizar serviços financeiros.
O setor bancário brasileiro é historicamente caracterizado por um baixo volume de crédito, por alto custo das taxas de juros e por um alto grau de exclusão bancária. A estratégia recente dos bancos tem elevado o grau de exclusão da população, afastando o Sistema Financeiro Nacional de um processo de desenvolvimento econômico e social, com atendimento e orientação adequados à população.
O recente aumento do endividamento e inadimplência na população também está ligado a esse processo de exclusão do atendimento de qualidade. Portanto, a garantia de atendimento físico de qualidade – junto a melhoria das condições de crédito - é condição fundamental para que os bancos se alinhem ao desenvolvimento do país.
Dirigentes refletem sobre como reduzir o impacto do fechamento de agências
O dirigente Cleberson Eichholz, em seguida, ressaltou a importância de “construir um projeto de lei que garanta algumas exigências que façam com que os bancos não possam tomar as atitudes que têm tomado a seu bel-prazer. É através do Legislativo que a podemos avançar nesse sentido. Atualmente, há poucas leis exigindo que os bancos prestem serviço de qualidade para a população. Não podemos aceitar esse modelo excludente que os bancos vêm adotando, sem atendimento presencial de caixas.”

Já, o dirigente Gustavo Tabatinga, lembrou que “nenhuma das agências bancárias fechadas em SC foi de bancos que tenham tido prejuízo nos últimos 10 anos, e que a grande maioria dessas agências sequer davam prejuízo nas suas próprias unidades. Nesse sentido, não podemos deixar de ressaltar a importância dos bancos públicos neste processo, que ainda permanecem atendendo a população no interior.”

“É importante que essa Casa Legislativa dê um recado para o Parlamento Federal de que é necessária maior regulamentação no setor, bem como a proibição que entes públicos estaduais optem por contratação de empresas que não tenham rede de atendimento para oferecer à população”, finalizou.
O coordenador da Fetrafi-SC, Marco Silvano, destacou a necessidade de debater com a comunidade local para mostrar a importância da ação de cidadania junto ao poder público. “Faço esse comentário porque este ano é um ano de eleições e vamos renovar essa Casa Legislativa e a luta da categoria bancária é histórica e foi fundamental, inclusive, no processo de redemocratização do país.”

"Quando nos manifestamos para baixar a taxa de juros, por exemplo, não estamos pensando apenas nos colegas bancários, mas em toda a classe trabalhadora. Portanto, queremos envolver toda a sociedade também neste debate porque este tema é de interesse de todos. Quem é que não interessa aos bancos? A gente sabe que os clientes de alta renda ganham espaços mais modernos, tecnológicos e presenciais para serem atendidos. Quem é excluído diariamente é o idoso, o aposentado, o pequeno e médio empresário, o pequeno e médio agricultor."
Silvano ainda refletiu sobre “a quem serve o modelo de negócio dos bancos, à sociedade catarinense ou apenas a esse interesse de maximização do lucro das instituições? Referente a isso, devemos lembrar que a nossa Constituição Federal, no artigo 192, estabelece que o sistema financeiro deve promover o desenvolvimento equilibrado do país e servir aos interesses da coletividade. E, infelizmente, estamos vendo justamente o contrário. Como mostraram os dados do Dieese, o sistema bancário é altamente concentrado.”
O dirigente ainda ressaltou que “o lucro do sistema financeiro no ano passado ultrapassou os 255 bilhões. Essa semana, dois bancos privados apresentaram seus resultados do semestre, representando mais de 30 bilhões de lucro apenas nos primeiros 6 meses deste ano. E, ao mesmo tempo, fecham agências, eliminam empregos e reduzem o acesso da população aos serviços financeiros. Nos últimos 10 anos, o Brasil perdeu mais de 1/3 das suas agências bancárias e quase mais da metade dos municípios brasileiros não têm, hoje, agência e atendimento presencial. E os bancos têm justificado este movimento pelo processo de digitalização e pela mudança de comportamento dos clientes.”
Fica a pergunta: essa mudança é uma escolha da população ou uma imposição dos próprios bancos, que reduziram o atendimento presencial e obrigaram os clientes a utilizar esses aplicativos? Não negamos a importância da tecnologia, mas sabemos que ela tem aumentado muito o número de fraudes. Então aquele que só tem acesso à sua conta bancária através dos aplicativos é aquele que tá mais propenso a levar um golpe. Quando o atendimento é presencial, esse risco diminui bastante.
Como encaminhamento, será criada uma Comissão Parlamentar Mista na Alesc
Um dos encaminhamentos propostos é a criação de uma Comissão Parlamentar Mista para exigir comprometimento das instituições no sentido de barrar esse processo de fechamento de agências, bem como garantir atendimento de qualidade à população. Além disso, ficou definido a continuidade do processo de mobilização da sociedade no sentido de envolver a bancada federal de Santa Catarina, em Brasília, com o objetivo de termos aprovados projetos de lei que protejam a população das medidas que vem sendo adotadas pelos bancos.
A Fetrafi-SC foi convidada pelo Deputado Padre Pedro para participar do processo de constituição da Comissão Parlamentar Mista, que deverá elaborar Projeto de Lei específico a ser apresentado para debate na casa legislativa catarinense.



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